Esta obra, na lista curta de nomeados para o Man Booker Prize de 2007 conta a história de Changez, um jovem paquistanês idealista que após ter estudado na universidade de Princenton é recrutado por uma firma de Wall Street, iniciando uma carreira que se antevê brilhante. Sucessos académicos e profissionais e uma adaptação rápida a Nova Iorque, uma cidade em que se sente em casa, fazem com que os colegas e amigos o considerem integrado em Manhattan, apesar de ser sempre visto como algo "exótico".
O protagonista apaixona-se por Erica, com quem tenta desenvolver uma relação. Contudo, o estado mental instável de Erica e os ataques de 11 de Setembro levam Changez a questionar o modelo de supremacia americano, o seu trabalho e a tornar-se crítico face ao que vê como a arrogância dos Estados Unidos. A primeira coisa que faz é deixar crescer a barba, uma provocação que altera o modo como as pessoas o vêem, o que por sua vez gera em Changez sentimentos de paranóia e ressentimento.
A história é contada em forma de monólogo a um americano que o protagonista conhece num café de Lahore, após o seu regresso ao Paquistão e aos valores religiosos e culturais do seu país. A rejeição dos Estados Unidos e da sociedade ocidental (talvez fruto da frustração face ao amor não correspondido) vai se intensificando. O americano poderá ser um agente secreto ou homem de negócios e as intenções de Changez durante a narrativa são também duvidosas, já que o seu discurso mostra claros sinais de radicalização islâmica.
A escrita fluída e dúbia de Hamid, a descrição da crise de identidade cultural que a personagem atravessa e a tensão criada tanto no momento presente no café como no passado que leva à possível escolha do terrorismo como opção contra a injustiça tornam este livro uma leitura às vezes chocante, mas cativante e humana. Não se trata de uma obra de ficção sobre o 11 de Setembro, mas sobre a capacidade transformadora do 11 de Setembro.
Monday, 22 December 2008
Tuesday, 25 November 2008
O Inverno em Londres, Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra
"E, todavia, Deus sabe que ele não é agradável, esse Inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se diante da janela uma sonora opaca, espessa, parda, arrepiadora e sinistra: é necessário fazer a barba com o gás flamejando; almoça-se com todas as velas do candelabro acesas, e a carruagem que me conduz é precedida de um archote. Ao meio-dia esta decoração de inferno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarelo de oca e começa a exalar um vapor fétido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso húmido sobre a pele, os edifícios que nos cercam aparecem com as linhas vagas e quiméricas das cidades malditas do Apocalipse e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrépito, que deve há em cima incomodar a corte do céu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor num subterrâneo.
Depois, à noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, mole gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama em lama mal líquida, que escorre, pinga! Vem babada de um céu negro.
O gás parece cor de sangue; como todo o mundo, para combater esta névoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, há nas ruas um vago vapor a álcool, que passa os hálitos: isto excita, irrita, impele a turba ao vício. O ruído intolerável das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flamejar das vitrinas dão uma aceleração brutal ao sangue, uma vibração quase dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com ímpeto, deseja-se com furor; a besta humana inflama-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a luta, o excesso, a gula, o abrasado do conhaque, a paixão. Londres numa noite de Inverno, exala violência e crime. E pode-se afirmar que em cada uma das tipóias que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, com relampejar rubro de lanternas, vai um cidadão ou uma cidadã cometendo ou preparando-se para cometer, com excepção da preguiça, um dos sete pecados mortais."
Depois, à noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, mole gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama em lama mal líquida, que escorre, pinga! Vem babada de um céu negro.
O gás parece cor de sangue; como todo o mundo, para combater esta névoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, há nas ruas um vago vapor a álcool, que passa os hálitos: isto excita, irrita, impele a turba ao vício. O ruído intolerável das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flamejar das vitrinas dão uma aceleração brutal ao sangue, uma vibração quase dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com ímpeto, deseja-se com furor; a besta humana inflama-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a luta, o excesso, a gula, o abrasado do conhaque, a paixão. Londres numa noite de Inverno, exala violência e crime. E pode-se afirmar que em cada uma das tipóias que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, com relampejar rubro de lanternas, vai um cidadão ou uma cidadã cometendo ou preparando-se para cometer, com excepção da preguiça, um dos sete pecados mortais."
Monday, 10 November 2008
PESTO!
Pesto Muito Simples
1 chávena pequena de azeite
1 ramo de mangericão ou uma combinação interessante a experimentar é hortelã com coentros, mas pode-se usar salsa ou rúcola.
100 gr de pinhões
1 dente de alho
50 gr de paramesão ralado
Passa-se com a varinha mágica e saboreia-se com massa, esparguete, gnochi...
Thursday, 6 November 2008
Livros com títulos implausíveis
"How to Avoid Huge Ships: And Other Implausibly Titled Books" (Joel Rickett) debruça-se sobe livros com títulos absurdos. Em 2008 assinala-se os 30 anos da fundação do prémio "Diagram" para celebrar extravâncias de editores e premiar o livro publicado com o título mais estranho.
Alguns destes compilados por Rickett são intrigantes, outros alarmantes, outros completamente loucos.
Eis alguns dos meus favoritos
"Bombproof Your Horse",
"How to Avoid Huge Ships"
"Do-It-Yourself Brain Surgery"
"Second International Workshop on Nude Mice"
"Secrets Your Snake Wants You to Know"
"Hot Topics in Urology"
"The Joy of Chickens"
"The Book of Marmalade: Its Antecedents, Its History and Its Role in the World Today"
"Highlights in the History of Concrete"
"Greek Rural Postmen and Their Cancellation Numbers"
Alguns destes compilados por Rickett são intrigantes, outros alarmantes, outros completamente loucos.
Eis alguns dos meus favoritos
"Bombproof Your Horse",
"How to Avoid Huge Ships"
"Do-It-Yourself Brain Surgery"
"Second International Workshop on Nude Mice"
"Secrets Your Snake Wants You to Know"
"Hot Topics in Urology"
"The Joy of Chickens"
"The Book of Marmalade: Its Antecedents, Its History and Its Role in the World Today"
"Highlights in the History of Concrete"
"Greek Rural Postmen and Their Cancellation Numbers"
Wednesday, 5 November 2008
CHANGE
Até ontem não acreditava que Barrack Obama conseguisesse ganhar as eleições, mesmo com todas as sondagens a dar-lhe a vitória. Pensei que fosse haver fraude (que não acontece só no Zimbabué) ou que o chamado “efeito de Bradley” distorcesse os resultados (assim denominado por causa do candidato afro-americano Tom Bradley, que perdeu a corrida a governador da Califórnia em 1982, apesar das sondagens o darem como vencedor, quer isto dizer que as pessoas mentem nas sondagens de opinião, para não parecerem racistas ou retrógadas)
O ambiente é de júbilo total, após 8 anos do governo incompetente, destrutivo, divisivo e absurdo de George W Bush. Pouco importa que a Barrack Obama falte experiência. Com a inteligência e capacidade de empatia que possui, aprende depressa. Do ponto de vista simbólico estas eleições são “históricas”, e olhem que me irrita esta palavra, gasta pelos meios de comunicação social e aplicada a tudo, desde a jogos de futebol, a qualquer tratado, cimeira ou discurso político.
Os anti-americanos radicais que odeiam ou invejam os Estados Unidos devem agora questionar os seus próprios preconceitos. País de contrastes, continuo a manter que os Estados Unidos produzem o melhor e o pior nos mais diversos campos. A constante reinvenção e auto-mitologização nacional é uma característica que gera críticas e principalmente incompreensão. Porque é que o 11de Setembro se tornou o 11 de Setembro? Não só porque é um dos eventos mais marcantes deste jovem século, mas pela dissecação que os americanos fizeram dos factos a níveis diferentes, culturais, sociais, psicológicos e políticos. Os eventos ali são confrontados, ruminados, transformados em filmes, livros, debatidos até à exaustão. Quantos anos se demora a digerir conflitos ou inconsistências ideológicas na velha Europa? Será que o passado fascista está “arrumado” nas mentes colectivas? Duvido muito, mas uma coisa é certa, Bush que já está nos écrans de cinema pela mão do realizador Oliver Stone, já foi analisado e devidamente colocado no caixote do lixo da história. A única coisa que conta agora é a esperança, a mudança e andar para a frente nos Estados Unidos liderados por Obama. O mundo suspira de alívio e enche-se de optimismo.
O ambiente é de júbilo total, após 8 anos do governo incompetente, destrutivo, divisivo e absurdo de George W Bush. Pouco importa que a Barrack Obama falte experiência. Com a inteligência e capacidade de empatia que possui, aprende depressa. Do ponto de vista simbólico estas eleições são “históricas”, e olhem que me irrita esta palavra, gasta pelos meios de comunicação social e aplicada a tudo, desde a jogos de futebol, a qualquer tratado, cimeira ou discurso político.
Os anti-americanos radicais que odeiam ou invejam os Estados Unidos devem agora questionar os seus próprios preconceitos. País de contrastes, continuo a manter que os Estados Unidos produzem o melhor e o pior nos mais diversos campos. A constante reinvenção e auto-mitologização nacional é uma característica que gera críticas e principalmente incompreensão. Porque é que o 11de Setembro se tornou o 11 de Setembro? Não só porque é um dos eventos mais marcantes deste jovem século, mas pela dissecação que os americanos fizeram dos factos a níveis diferentes, culturais, sociais, psicológicos e políticos. Os eventos ali são confrontados, ruminados, transformados em filmes, livros, debatidos até à exaustão. Quantos anos se demora a digerir conflitos ou inconsistências ideológicas na velha Europa? Será que o passado fascista está “arrumado” nas mentes colectivas? Duvido muito, mas uma coisa é certa, Bush que já está nos écrans de cinema pela mão do realizador Oliver Stone, já foi analisado e devidamente colocado no caixote do lixo da história. A única coisa que conta agora é a esperança, a mudança e andar para a frente nos Estados Unidos liderados por Obama. O mundo suspira de alívio e enche-se de optimismo.
Wednesday, 29 October 2008
O top 10 dos meus erros máximos em termos de moda
- Permanente nos anos 80: Mas quem não a teve que atire a primeira pedra
- Cabelo curto com popa espetada e com gel no fim dos anos 80
- Mini saia aos trinta e tal anos sem ter pernas para isso: Convencida que era agora ou nunca, decidi tentar esta modalidade com resultados trágicos
- Kispo de penas sem mangas
- Nunca ter usado bikini quando podia
- Calças de ganga rasgadas no início dos anos 90: Supostamente rebeldes, estes “jeans” deslavados e apertados são das peças mais horrendas que pode haver, lembrando bandas de rock tipo Bon Jovi
- Vestido de ganga tipo jardineiras nos anos 90, aliás jardineiras em geral injustificáveis em pessoas com idade superior a 7 anos
- Blusão a imitar cabedal preto e outras falsidades ignóbeis
- Vestido turco para ir para a praia (em minha defesa foi nos anos 70 e eu não tinha voto na matéria, já que este me era imposto pela avó que usava toucas ou turbantes turcos)
- Sandálias de plástico, também para a praia coloridas, com teor altamente prático, pois evitavama picada do peixe aranha, mas mesmo assim...
Wednesday, 15 October 2008
"A mania das roupas"-parte 1
Durante muitas anos tentei suprimir uma grande paixão minha, considerada superficial e absurda: a moda e roupas, roupagens, acessórios, sapatos, enfeites. Este interesse e amor começou muito cedo, mas a minha primeira memória deste romance remonta à primeira ou segunda classe. Na altura do 25 de Abril, na escola Voz do Operário gostar de roupas era visto como uma ostentação quase fascista. Mas eu desenvolvi um desejo secreto de ter umas botas bicudas de camurça com um salto, nem sequer muito alto, que vi numa colega. Não me lembro do nome da rapariga, mas recordo-me de sermos diferentes, pelo simples facto de rejeitarmos a estética hippy e a moda étnica dos anos 70. Ambos idolatravamos a Olivia Newton Jones e cantarolavamos as músicas do filme “Grease”. Em casa achavam-me uma “pirosinha” e gozavam com a minha tendência para as “botas para matar baratas ao canto da sala”. Já na minha tenra infância costumava experimentar várias “toilettes” e infelizmente deixar roupas espalhadas por todo o lado. A prática de mudar de roupa de manhã, tarde e noite era-me natural, como se vez de ser uma criança no Areeiro e depois nas Avenidas Novas em Lisboa, fosse uma senhora aristocrática nos anos 30 que se veste para escrever cartas de manhã, muda de roupa para o almoço e mais tarde para o jantar. Todos os anos, na Primavera e no Outono, a minha avó Adelaide levava-nos às compras à Baixa ou à Avenida de Roma e Guerra Junqueiro. Mas a avó não era pessoa para nos deixar escolher as roupas que queriamos, tinha sempre que haver uma complexa negociação entre o nosso própio gosto, o dela e considerações práticas sobre se precisavamos ou não daquela peça e se a avó a achava decente para a nossa idade. Em pequenas, a avó vestia-nos de igual e cortava-nos o cabelo à tijela, o que ainda hoje me deixou com uma relação muito difícil com o conceito de franja. Outro problema que surgiu na década da nossa meninice em qualquer circunstância era o frio glaciar. Reconheço que sofremos hoje com o aquecimento do planeta, mas seria o clima assim tão frio no Portugal pós-revolucionário que justificasse os gorros, alguns a só deixar de fora os olhos, os ponchos, as collants de lã (que escorregavam) e vestidos de fazenda? Mesmo as flanelas que apareciam por todo lado, como lençóis, camisas, pijamas, tudo era um vasto campo de flanela. Esses tecidos arranhavam e faziam suar, estão a ouvir?
Passados os rigores invernais dos anos 70, entrei nos anos 80, com um sentido de estilo esquizofrénico. Por um lado queria vestir-me como nos telediscos, ser “pop” copiar a Sade Adu (nunca a Madonna) por outro, influenciada pela avó Adelaide e pelo nosso liceu ultra-conservador vestia saias compridas de xadrez, colarinhos com enormes golas que se aplicavam aos pullovers, colares de pérolas e bandelettes de veludo, como se tivesse 55 e não 15 anos! Assim posso dividir os "meus anos 80" em três fases:
Jovem com permanente no cabelo, roupas assimétricas e coloridas e bijuteria de plástico. Um Verão eu e a Ana Marta decidimos que todas as nossa roupas tinham que ser verde alface e laranjas (as cores da moda) e então tinjimo-las. Climax: Andar de skate com calças amarelas, ténis vermelhos e t-shirt do Snoopy.
A segunda fase foi a beta com os kispos alcochoados, os axadezados, os rendilhados. Climax: Colete kispo sem mangas com saia de pregas, sapatos mocassins e laço no cabelo.
A última fase é gótica-vintage-andrógina, o que significou uma adesão total ao preto, à maquilhagem carregada (cara branca com lábios vermelhos), resgate de roupas da avó e até do meu bisavó Zé (coletes e calças gigantes, camisas e gravatas, que me ficavam a nadar, dada a barriguita proeminente do senhor).
Passados os rigores invernais dos anos 70, entrei nos anos 80, com um sentido de estilo esquizofrénico. Por um lado queria vestir-me como nos telediscos, ser “pop” copiar a Sade Adu (nunca a Madonna) por outro, influenciada pela avó Adelaide e pelo nosso liceu ultra-conservador vestia saias compridas de xadrez, colarinhos com enormes golas que se aplicavam aos pullovers, colares de pérolas e bandelettes de veludo, como se tivesse 55 e não 15 anos! Assim posso dividir os "meus anos 80" em três fases:
Jovem com permanente no cabelo, roupas assimétricas e coloridas e bijuteria de plástico. Um Verão eu e a Ana Marta decidimos que todas as nossa roupas tinham que ser verde alface e laranjas (as cores da moda) e então tinjimo-las. Climax: Andar de skate com calças amarelas, ténis vermelhos e t-shirt do Snoopy.
A segunda fase foi a beta com os kispos alcochoados, os axadezados, os rendilhados. Climax: Colete kispo sem mangas com saia de pregas, sapatos mocassins e laço no cabelo.
A última fase é gótica-vintage-andrógina, o que significou uma adesão total ao preto, à maquilhagem carregada (cara branca com lábios vermelhos), resgate de roupas da avó e até do meu bisavó Zé (coletes e calças gigantes, camisas e gravatas, que me ficavam a nadar, dada a barriguita proeminente do senhor).
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