Thursday, 18 February 2010
Friday, 12 February 2010
2010: o ano da digitalização do livro
Os livros electrónicos e os aparelhos para os ler já existem há algum tempo, mas estão agora a generalizar-se com uma rapidez estonteante e nada vai alterar o curso desta mudança profunda a caminho da digitalização.
A própria definição do livro como objecto, como conceito e entidade está em causa. A sua integridade, se quisermos está a ser atacada. Mas não pensem, meus queridos leitores que me vou juntar aqueles que lamuriam o fim dos livros e das bibliotecas. Aqueles que falam do cheiro das páginas, da relação íntima com o livro físico, dos que colecionam obessessivamente e os que compram livros por "terem pena de os deixar maltratados na loja" como li no outro dia, num artigo sobre bibliófilos. Jorge Luis Borges escreveu que o paraíso é uma biblioteca e quem gosta de livros identifica-se com essa comparação.
Há vários anos que iniciei a difícil, mas libertadora tarefa de doar livros a bibliotecas, amigos, sotãos variados, garagens, lojas em segunda mão e caridade. Bibliófilos estremeceriam a pensar nesses livros encaixotados, a sofrer com a humidade e o escuro, as suas páginas eruditas cerradas, a amarelecerem, as suas palavras paralisadas por este triste destino.
A verdade é que apesar de também achar as bibiotecas e livrarias locais de refúgio, de encontro com novos temas, novos autores, novas ideias, há livros para guardar e para admirar e há livros para ler e deitar fora, de preferência para serem lidos por outros ou alguns para serem destruídos, reciclados e transformados em coisas mais úteis. Que heresia, ouço já bradar os que mitificam e tratam os livros como algo de sublime. Sejamos honestos, por terem a forma de "livro", nem todas as publicações merecem este grau de embasbacamento e idolatração. Não estamos a falar de edições antigas, nem de obras culturais de envergadura, que naturalmente devem ser preservadas em museus-bibliotecas. Não seria melhor para o ambiente, por razões de espaço, de conveniência que certos livros pudessem ser descarregados electronicamente e lidos em qualquer lado, transportados com facilidade numa viagem, por exemplo?
Há anos, andei a carregar uma mala pesadissima na América latina com livros para me durarem 15 dias, que ia deixando em aeroportos. Recordo-me de ter acabado de ler um livro sobre uma lésbica judia ortodoxa em Londres que em deixou insatisfeita por ter um final mal resolvido. Não só me irritou o facto de o livro insistir em transportar-me de volta para Londres, quando eu estava num aeropoto no México (adoro ler livros passados nos locais que visito) como a autora não pensou nas consequências de não acabar de uma forma que fazia sentido, pelo que logo o abandonei, as suas 300 páginas e capa dura e pesada numa cadeira, talvez para serem lidos e irritarem outra pessoa? Há livros muito mauzinhos.
Ao contrário dos CDs de música que não instigam qualquer espécie de enamoramento, os livros sempre inspiraram este misto de respeito, afeição, quando não de pura obssessão. Ninguém vai queimar os livros na grande fogueira da digitalização. O livro não vai desaparecer, porque os seres humanos são tácteis e os computadores não se podem levar para a cama e para o banho tão facilmente e não são objectos tão bonitos. Contudo, este ano a viragem está a ocorrer. O livro digitalizou-se.
Saturday, 23 January 2010
A era da atenção
Ultimamente tenho andado a pensar na internet. Não é uma coisa em que a maioria das pessoas pensem, mas uma coisa que usam sem pensar, que se tornou parte das nossas vidas diárias, do nosso trabalho e do nosso lazer. A geração que tem agora 20 anos não sabe o que é viver sem esta rede que está em transformação profunda e que transformou radicalmente a maneira como vivemos, comunicamos e talvez mesmo os nossos próprios processos cognitivos. Será ir longe demais considerar que os nossos cérebros se alteram por terem acesso constante e imediato a todo este manacial de informação? E não se trata apenas de pura informação, mas dos contactos íntimos e sociais desencadeados pela nossa presença "online".
A minha atribulada relação com a internet começou cedo, quando no início dos anos 90 ia para o técnico usar o computador do meu pai, cujo diálogo com estes seres remonta à década anterior. Tivemos o Spectrum onde jogávamos jogos repetitivos e de uma simplicidade absurda que estão agora na moda outra vez pela sua qualidade "retro" e usávamos estes computadores primitivos para escrever trabalhos para a escola, fazendo sair da enorme impressora aqueles rolos de folhas com os furos de lado que se amontoavam no chão do escritório. Assim o computador era para mim uma máquina de escrever, mais eficiente porque não se tinha que usar Tippex, aquele liquido branco para limpar o texto e uma máquina para jogar Tétris, Chucky Egg, Pac Man e Jet Set Willy.
Mas com a internet, incialmente usada em universidades e para correio electrónico apercebi-me do seu potencial para fazer pesquisa e como veículo para me deleitar em deambulações inúteis. Os modems eram super-lentos e não existia a Google, quase ninguém tinha e-mail. Os motores de busca eram o Altavista, o Lycos e outros que foram desaparecendo, esmagados peal supremacia googlica.
A internet tem sofrido rápidas mudanças, com avanços em termos de rapidez, estruturação, adesão de utilizadores, sofisticação dos meios de comunicação e pesquisa da informação bem como a digitalização de materiais escritos. Na era da informação, criou-se a ideia de que se algo ou alguém não está na internet é porque não existe.
Com o excesso de informação e a natureza social da "web 2.0", a fase iniciada em meados da década passada, em que a partilha da informação, os contactos e redes sociais dominam o uso da internet começa-se a falar da "era da atenção".
Já não basta apenas existir na internet e usá-la, mas é necessário participar, opinar, comunicar, transmitir. Daí a explosão dos Blogs e a ascenção do Facebook, do Twitter, do Youtube, da Wikipedia, do Flickr. O conteúdo passa a ser produzido pelos utilizadores, que deixam de ser consumidores passivos dos mídia. Esta revolução está a ter um enorme impacto nos meios de comunicação tradicionais e implica uma democratização e desvalorização de conceitos como objectividade, veracidade, autoridade.
A geração google não está a habituada a pagar pelo acesso à informação na internet e estamos a atravessar um período crucial para os jornais e outras publicações escritas, editoras, bibliotecas e outros "guardiões" tradicionais da informação e do conhecimento. Ou se redefinem e encontram novas funções e maneiras de sobreviver ou estão condenados
A "web 3.0" que é a fase em que estamos a entrar aponta para uma internet semântica, que compreende o que estamos à procura, que liga todos os aspectos da nossa vida digital (a única?) com uma nova elegante e inteligente arquitectura que está a faltar neste oceano de informaçao.
A minha atribulada relação com a internet começou cedo, quando no início dos anos 90 ia para o técnico usar o computador do meu pai, cujo diálogo com estes seres remonta à década anterior. Tivemos o Spectrum onde jogávamos jogos repetitivos e de uma simplicidade absurda que estão agora na moda outra vez pela sua qualidade "retro" e usávamos estes computadores primitivos para escrever trabalhos para a escola, fazendo sair da enorme impressora aqueles rolos de folhas com os furos de lado que se amontoavam no chão do escritório. Assim o computador era para mim uma máquina de escrever, mais eficiente porque não se tinha que usar Tippex, aquele liquido branco para limpar o texto e uma máquina para jogar Tétris, Chucky Egg, Pac Man e Jet Set Willy.
Mas com a internet, incialmente usada em universidades e para correio electrónico apercebi-me do seu potencial para fazer pesquisa e como veículo para me deleitar em deambulações inúteis. Os modems eram super-lentos e não existia a Google, quase ninguém tinha e-mail. Os motores de busca eram o Altavista, o Lycos e outros que foram desaparecendo, esmagados peal supremacia googlica.
A internet tem sofrido rápidas mudanças, com avanços em termos de rapidez, estruturação, adesão de utilizadores, sofisticação dos meios de comunicação e pesquisa da informação bem como a digitalização de materiais escritos. Na era da informação, criou-se a ideia de que se algo ou alguém não está na internet é porque não existe.
Com o excesso de informação e a natureza social da "web 2.0", a fase iniciada em meados da década passada, em que a partilha da informação, os contactos e redes sociais dominam o uso da internet começa-se a falar da "era da atenção".
Já não basta apenas existir na internet e usá-la, mas é necessário participar, opinar, comunicar, transmitir. Daí a explosão dos Blogs e a ascenção do Facebook, do Twitter, do Youtube, da Wikipedia, do Flickr. O conteúdo passa a ser produzido pelos utilizadores, que deixam de ser consumidores passivos dos mídia. Esta revolução está a ter um enorme impacto nos meios de comunicação tradicionais e implica uma democratização e desvalorização de conceitos como objectividade, veracidade, autoridade.
A geração google não está a habituada a pagar pelo acesso à informação na internet e estamos a atravessar um período crucial para os jornais e outras publicações escritas, editoras, bibliotecas e outros "guardiões" tradicionais da informação e do conhecimento. Ou se redefinem e encontram novas funções e maneiras de sobreviver ou estão condenados
A "web 3.0" que é a fase em que estamos a entrar aponta para uma internet semântica, que compreende o que estamos à procura, que liga todos os aspectos da nossa vida digital (a única?) com uma nova elegante e inteligente arquitectura que está a faltar neste oceano de informaçao.
Friday, 15 January 2010
"Personal History", Katharine Graham
Estou a ler com grande vagar a biografia de Katharine Graham, que geriu o Washington Post durante duas décadas. Este livro fascinante ganhou o prémio Pulitzer em 1998 e é uma história fascinante sobre um dos mais prestigiosos jornais do mundo, durante a segunda metade do século passado. Nascida numa família judia milionária e excêntrica, Katharine conta como o pai comprou o jornal num leilão de empresas na bancarrota e como ela e marido Phil o conseguiram tornar num sucesso editorial e financeiro. As suas impressões do jornalismo como se fazia antigamente, as considerações deontológicas , as descrições de personagens na redação do Washington Post e os bastidores do Watergate, que levou à demissão do Presidente Nixon são narradas à mistura com a história pessoal de uma mulher que se afirmou num universo masculino.
Friday, 8 January 2010
Modas e tendências em Culinária
O Food Channel analisa as modas em alimentação e culinária da última década, incluindo pratos, sabores, "chefs", alimentos, movimentos, inovações em restaurantes e etc...
Vale a pena ver quais as tendências previstas para a próxima década
www.foodchannel.com
Vale a pena ver quais as tendências previstas para a próxima década
www.foodchannel.com
Wednesday, 6 January 2010
Leitora-um perfil
Estamos numa nova década e tenho andado a pensar numa lista dos meus livros preferidos dos últimos dez anos. No entanto, esta lista não me aparece facilmente, não a consigo compilar, por falta de tempo e principalmente porque penso apenas nos livros que não li.
Talvez seja também necessária uma lista dos artigos que queria aqui escrever e não posso, mas isso é outro tema.
A escritora espanhola Rosa Montero defendeu que há um certo género de pessoas que "lêem contra o tempo", ou numa corrida para tentar ler o máximo antes da morte. Há os que lêem os livros mais do que uma vez, os que lêem partes de livros, outros que nunca acabam os livros.
Sendo este um espaço sobre leitura é importante definir o meu perfil de leitor:
1-Nunca leio o mesmo livro duas vezes (há tantos livros que quero ler que não me posso dar a esse luxo).
2-É rarissimo não acabar um livro, tem que ser muito mau para não me forçar a terminá-lo (acho que devemos isso ao autor no momento em que escolhemos ler).
3-Gosto de ter livros à minha volta mas deixei de ter uma relação fisíca com os livros no sentido em que me desfiz de vários caixotes cheios e mantenho outros numa garagem húmida (os livros não são pessoas).
4-Às vezes leio vários livros ao mesmo tempo.
5-Adoro a ideia do "livro dentro do livro", por exemplo um conjunto de romances da Alison Lurie em que uma personagem surge num livro e depois é referenciada ou aparece como personagem secundária noutro. No Jpod de Douglas Coupland, a personagem principal, Ethan e os colegas falam de Douglas Coupland e Ethan até se cruza com ele num avião.
6-Queria ler "Guerra e paz", mas faz-me imenso sono.
7-Não suporto o Harry Potter. É interessante que nesta última década os livros mais vendidos tenham a ver com universos mágicos, vampiros, ocultismo e conspirações religiosas. As pessoas não parecem querer ficção realista sobre temas mundanos (a minha preferida).
8-Gosto cada vez mais de biografias, não sei porquê, talvez por serem (na sua maioria) escritas por pessoas mais velhas com uma tendência para relativizar e analisar.
9-Leio poucos livros de história por ter estudado este tema na universidade e associa-lo a "ler por dever".
10-Quase nunca consegui ter uma conversa proveitosa sobre um livro. Se calhar duas pessoas a ler o mesmo livro estão na realidade a ler livros diferentes.
11-Quando viajo gosto de ler um livro que tenha a ver com o sítio para onde vou ou seja passado nesse sítio
12-Não gosto de prosa poética
Para já é isto...
Talvez seja também necessária uma lista dos artigos que queria aqui escrever e não posso, mas isso é outro tema.
A escritora espanhola Rosa Montero defendeu que há um certo género de pessoas que "lêem contra o tempo", ou numa corrida para tentar ler o máximo antes da morte. Há os que lêem os livros mais do que uma vez, os que lêem partes de livros, outros que nunca acabam os livros.
Sendo este um espaço sobre leitura é importante definir o meu perfil de leitor:
1-Nunca leio o mesmo livro duas vezes (há tantos livros que quero ler que não me posso dar a esse luxo).
2-É rarissimo não acabar um livro, tem que ser muito mau para não me forçar a terminá-lo (acho que devemos isso ao autor no momento em que escolhemos ler).
3-Gosto de ter livros à minha volta mas deixei de ter uma relação fisíca com os livros no sentido em que me desfiz de vários caixotes cheios e mantenho outros numa garagem húmida (os livros não são pessoas).
4-Às vezes leio vários livros ao mesmo tempo.
5-Adoro a ideia do "livro dentro do livro", por exemplo um conjunto de romances da Alison Lurie em que uma personagem surge num livro e depois é referenciada ou aparece como personagem secundária noutro. No Jpod de Douglas Coupland, a personagem principal, Ethan e os colegas falam de Douglas Coupland e Ethan até se cruza com ele num avião.
6-Queria ler "Guerra e paz", mas faz-me imenso sono.
7-Não suporto o Harry Potter. É interessante que nesta última década os livros mais vendidos tenham a ver com universos mágicos, vampiros, ocultismo e conspirações religiosas. As pessoas não parecem querer ficção realista sobre temas mundanos (a minha preferida).
8-Gosto cada vez mais de biografias, não sei porquê, talvez por serem (na sua maioria) escritas por pessoas mais velhas com uma tendência para relativizar e analisar.
9-Leio poucos livros de história por ter estudado este tema na universidade e associa-lo a "ler por dever".
10-Quase nunca consegui ter uma conversa proveitosa sobre um livro. Se calhar duas pessoas a ler o mesmo livro estão na realidade a ler livros diferentes.
11-Quando viajo gosto de ler um livro que tenha a ver com o sítio para onde vou ou seja passado nesse sítio
12-Não gosto de prosa poética
Para já é isto...
Sunday, 6 December 2009
Serões da província-Crime no campo
Estive ausente deste espaço no mês de Novembro e tenho passado muito pouco tempo na minha aldeia, pelo que a minha integração está a ser mais demorada.
No entanto ocorreu aqui um incidente quando um rapaz apareceu na minha casa à noite para me vender qualquer coisa e eu não lhe abri a porta, ao ver através dos vidros que ele tinha ar de quem estava desesperado e por me ter começado a gritar. Então, eu peguei no bébé (excitadissimo com esta aventura tardia) e fui à loja comprar pilhas para o telefone fixo. Estava incomunicável, já que não temos rede para telemóveis e na verdade o tal rapaz continuava a rondar a casa. Então fui ao pub e contei aos donos o que se tinha passado. O dono do pub (que está sempre embriagado e nunca se lembra de quem eu sou e pergunta normalmente o que me traz por ali, ao que eu sempre respondo que vivo na aldeia há já quatro meses) decidiu criar uma "patrulha" para investigar o sucedido. Entretanto a polícia telefona para o pub para me "entrevistar" sobre o suspeito e o crime. Expliquei à senhora agente da polícia que não havia ocorrido crime nenhum e apenas que o rapaz tinha sido um pouco insistente e agressivo. Mas as pessoas do pub queriam já que ele fosse detido por me ter incomodado. Através de várias conversas foi apurado que o jovem tinha sido libertado de um estabelecimento prisional para menores e que estava num programa de reintegração social em que tinha que vender panos de cozinha e outras inutilidades. Começei a ficar preocupada que a tal "patrulha" pudesse querer linchá-lo e tentei acalmar os ânimos que estavam cada vez mais exaltados contra esta nova "onda de crime na aldeia". Um senhor idoso e um homem das obras no pub avisaram-me que o suposto criminoso devia fazer parte de um perigoso "gang" de assaltantes que distraem as pessoas à porta enquanto os cúmplices entram pelas traseiras. "Mas isto é tudo infundado, são apenas suposições...eu apenas não lhe quis abrir a porta", dizia eu. Entretanto decidi deixar o pub em animadas discussões sobre como combater este e outros crimes, inclusivé o graffitti na paragem de autocarro e fui para a casa. Uma hora mais tarde batem à porta e era um polícia ruivo que parecia saído de uma série cómica inglesa que veio recolher o meu depoimento. Mais uma vez repeti que nada se tinha passado e disse-lhe para não perder tempo com este caso, mas ele parecia levar a sério a queixa do grupo do pub e disse que gostava muito de vir à aldeia que era um trabalho agradável e não se importava de ir para o pub fazer uma investigação do sucedido. Será que a polícia não tem aqui mais nada com que se entreter? A publicação local dedica este mês várias páginas ao crime nas redondezas, falando de "tentativas de assaltos" e de roubo de reboques para transporte de cavalos, além do já referido num "posting" anterior furto de combustível de tractores.
No entanto ocorreu aqui um incidente quando um rapaz apareceu na minha casa à noite para me vender qualquer coisa e eu não lhe abri a porta, ao ver através dos vidros que ele tinha ar de quem estava desesperado e por me ter começado a gritar. Então, eu peguei no bébé (excitadissimo com esta aventura tardia) e fui à loja comprar pilhas para o telefone fixo. Estava incomunicável, já que não temos rede para telemóveis e na verdade o tal rapaz continuava a rondar a casa. Então fui ao pub e contei aos donos o que se tinha passado. O dono do pub (que está sempre embriagado e nunca se lembra de quem eu sou e pergunta normalmente o que me traz por ali, ao que eu sempre respondo que vivo na aldeia há já quatro meses) decidiu criar uma "patrulha" para investigar o sucedido. Entretanto a polícia telefona para o pub para me "entrevistar" sobre o suspeito e o crime. Expliquei à senhora agente da polícia que não havia ocorrido crime nenhum e apenas que o rapaz tinha sido um pouco insistente e agressivo. Mas as pessoas do pub queriam já que ele fosse detido por me ter incomodado. Através de várias conversas foi apurado que o jovem tinha sido libertado de um estabelecimento prisional para menores e que estava num programa de reintegração social em que tinha que vender panos de cozinha e outras inutilidades. Começei a ficar preocupada que a tal "patrulha" pudesse querer linchá-lo e tentei acalmar os ânimos que estavam cada vez mais exaltados contra esta nova "onda de crime na aldeia". Um senhor idoso e um homem das obras no pub avisaram-me que o suposto criminoso devia fazer parte de um perigoso "gang" de assaltantes que distraem as pessoas à porta enquanto os cúmplices entram pelas traseiras. "Mas isto é tudo infundado, são apenas suposições...eu apenas não lhe quis abrir a porta", dizia eu. Entretanto decidi deixar o pub em animadas discussões sobre como combater este e outros crimes, inclusivé o graffitti na paragem de autocarro e fui para a casa. Uma hora mais tarde batem à porta e era um polícia ruivo que parecia saído de uma série cómica inglesa que veio recolher o meu depoimento. Mais uma vez repeti que nada se tinha passado e disse-lhe para não perder tempo com este caso, mas ele parecia levar a sério a queixa do grupo do pub e disse que gostava muito de vir à aldeia que era um trabalho agradável e não se importava de ir para o pub fazer uma investigação do sucedido. Será que a polícia não tem aqui mais nada com que se entreter? A publicação local dedica este mês várias páginas ao crime nas redondezas, falando de "tentativas de assaltos" e de roubo de reboques para transporte de cavalos, além do já referido num "posting" anterior furto de combustível de tractores.
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