Estive ausente deste espaço no mês de Novembro e tenho passado muito pouco tempo na minha aldeia, pelo que a minha integração está a ser mais demorada.
No entanto ocorreu aqui um incidente quando um rapaz apareceu na minha casa à noite para me vender qualquer coisa e eu não lhe abri a porta, ao ver através dos vidros que ele tinha ar de quem estava desesperado e por me ter começado a gritar. Então, eu peguei no bébé (excitadissimo com esta aventura tardia) e fui à loja comprar pilhas para o telefone fixo. Estava incomunicável, já que não temos rede para telemóveis e na verdade o tal rapaz continuava a rondar a casa. Então fui ao pub e contei aos donos o que se tinha passado. O dono do pub (que está sempre embriagado e nunca se lembra de quem eu sou e pergunta normalmente o que me traz por ali, ao que eu sempre respondo que vivo na aldeia há já quatro meses) decidiu criar uma "patrulha" para investigar o sucedido. Entretanto a polícia telefona para o pub para me "entrevistar" sobre o suspeito e o crime. Expliquei à senhora agente da polícia que não havia ocorrido crime nenhum e apenas que o rapaz tinha sido um pouco insistente e agressivo. Mas as pessoas do pub queriam já que ele fosse detido por me ter incomodado. Através de várias conversas foi apurado que o jovem tinha sido libertado de um estabelecimento prisional para menores e que estava num programa de reintegração social em que tinha que vender panos de cozinha e outras inutilidades. Começei a ficar preocupada que a tal "patrulha" pudesse querer linchá-lo e tentei acalmar os ânimos que estavam cada vez mais exaltados contra esta nova "onda de crime na aldeia". Um senhor idoso e um homem das obras no pub avisaram-me que o suposto criminoso devia fazer parte de um perigoso "gang" de assaltantes que distraem as pessoas à porta enquanto os cúmplices entram pelas traseiras. "Mas isto é tudo infundado, são apenas suposições...eu apenas não lhe quis abrir a porta", dizia eu. Entretanto decidi deixar o pub em animadas discussões sobre como combater este e outros crimes, inclusivé o graffitti na paragem de autocarro e fui para a casa. Uma hora mais tarde batem à porta e era um polícia ruivo que parecia saído de uma série cómica inglesa que veio recolher o meu depoimento. Mais uma vez repeti que nada se tinha passado e disse-lhe para não perder tempo com este caso, mas ele parecia levar a sério a queixa do grupo do pub e disse que gostava muito de vir à aldeia que era um trabalho agradável e não se importava de ir para o pub fazer uma investigação do sucedido. Será que a polícia não tem aqui mais nada com que se entreter? A publicação local dedica este mês várias páginas ao crime nas redondezas, falando de "tentativas de assaltos" e de roubo de reboques para transporte de cavalos, além do já referido num "posting" anterior furto de combustível de tractores.
Sunday, 6 December 2009
Thursday, 22 October 2009
BBC mostra coragem
Mesmo neste idílio campestre seguimos as notícias e hoje há aqui na Grã-Bretanha uma enorme polémica. A BBC convidou o líder do BNP (British National Party), Nick Griffin para fazer parte do painel do prestigiado Question Time, um programa de debate na televisão. Um grupo de políticos responde a questões do público, com um moderador. Há semanas que os jornais não falam de outra coisa e hoje à tarde pouco tempo antes da gravação do programa, centenas de manaifestantes contra o fascismo concentraram-se à porta do edifício da BBC, 25 deles tendo conseguido entrar até serem depois detidos pela polícia.
O BNP foi fundado em 1982 para "defender os direitos das populações indígenas da Grã-Bretanha", desde logo propagou uma ideologia de teor racista, fascista, anti-emigração, identificando-se com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen em França. Nick Griffin nega que o holocausto dos judeus tenha ocorrido. Nos últimos anos, este partido de extrema-direita tem vindo a crescer, alcançando 6% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu (dois deputados) e 16 vereadorores em Londres. O BNP tem vindo a roubar votos não aos Conservadores, mas aos Trabalhistas, com uma base de apoio na classe mais baixa, sem instrução, branca e que sente alienada da Grã-Bretanha multicultural.
Mesmo o estigma associado ao BNP parece esbater-se em certos meios, alguns orgulhando-se de votar num partido que quer um Reino Unido branco e a expatriação de cidadãos de outras origens étnicas.
Quando Griffin começou a ser entrevistado pelos meios de comunicação social temeu-se que isso levasse à reabilitação e legitimação de um partido com uma mensagem violenta e com tendências neo-nazis.
O director da BBC, Marc Thompson afirmou que cabe ao governo ilegalizar partidos políticos e que a BBC não pode exercer censura.
A BBC entende que o papel do jornalismo é questionar e expôr, não legislar. Vários políticos e comentadores, assim como os manifestantes de hoje acreditam que ao BNP deve ser negada uma plataforma onde espalhar a ideologia do ódio. Eu concordo com a BBC que os assuntos devem ser debatidos e a realidade não pode ser escamoteada numa democracia. É melhor tentar compreender o apelo deste partido e ouvir o que tem a dizer. Até porque como muitos extremistas, racistas e fascistas, os seus argumentos são pobres, mal-construídos e absurdos, a sua lógica cheia de contradições. Nick Griffin é hábil na manipulação da mensagem e em tentar esconder a verdadeira essência do partido, mas perante quem saiba fazer as perguntas certas não se aguenta. Veremos.
http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/8321157.stm
O BNP foi fundado em 1982 para "defender os direitos das populações indígenas da Grã-Bretanha", desde logo propagou uma ideologia de teor racista, fascista, anti-emigração, identificando-se com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen em França. Nick Griffin nega que o holocausto dos judeus tenha ocorrido. Nos últimos anos, este partido de extrema-direita tem vindo a crescer, alcançando 6% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu (dois deputados) e 16 vereadorores em Londres. O BNP tem vindo a roubar votos não aos Conservadores, mas aos Trabalhistas, com uma base de apoio na classe mais baixa, sem instrução, branca e que sente alienada da Grã-Bretanha multicultural.
Mesmo o estigma associado ao BNP parece esbater-se em certos meios, alguns orgulhando-se de votar num partido que quer um Reino Unido branco e a expatriação de cidadãos de outras origens étnicas.
Quando Griffin começou a ser entrevistado pelos meios de comunicação social temeu-se que isso levasse à reabilitação e legitimação de um partido com uma mensagem violenta e com tendências neo-nazis.
O director da BBC, Marc Thompson afirmou que cabe ao governo ilegalizar partidos políticos e que a BBC não pode exercer censura.
A BBC entende que o papel do jornalismo é questionar e expôr, não legislar. Vários políticos e comentadores, assim como os manifestantes de hoje acreditam que ao BNP deve ser negada uma plataforma onde espalhar a ideologia do ódio. Eu concordo com a BBC que os assuntos devem ser debatidos e a realidade não pode ser escamoteada numa democracia. É melhor tentar compreender o apelo deste partido e ouvir o que tem a dizer. Até porque como muitos extremistas, racistas e fascistas, os seus argumentos são pobres, mal-construídos e absurdos, a sua lógica cheia de contradições. Nick Griffin é hábil na manipulação da mensagem e em tentar esconder a verdadeira essência do partido, mas perante quem saiba fazer as perguntas certas não se aguenta. Veremos.
http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/8321157.stm
Wednesday, 7 October 2009
Pêras bêbedas em moscatel com chocolate preto
Ingredientes:
4 pêras grandes maduras cortadas em quartos
2 copos grandes de moscatel
Canela
Cravinho
Gengibre em pó
Estrela-de-anis
Crème fraîche ou nata batida sem açucar
Tablete de chocolate preto
Método:
Cozem-se as pêras em moscatel durante uns dez ou 15 minutos com as especiarias
Entretanto derrete-se o chocolate preto em banho maria. Serve-se as pêras com o molho de chocolate por cima e uma colher de sopa de crème fraîche
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RECEITAS
Tuesday, 29 September 2009
Serões da Província-Outono
De regresso à aldeia somos confrontados com uma carta em tom ríspido que nos informa que não estamos a cumprir as regras sobre o tamanho correcto para as sebes do jardim da frente e que as pessoas mal podem passar na rua, dada a luxuriante vegetação. Ainda mal aqui chegámos e já somos pessoas "non gratas" na terra. A verdade é que nem sequer sabiamos que eramos responsáveis pelas malditas sebes que me pareciam ao meu sentido estético citadino completamente verdejantes e regulares.
Descobri também que há interessantes actividades como o clube de badmington, de cricket, o grupo de jardinagem anunciadas num panfleto. Existe até um grupo de leitura muito exclusivo para o qual só se pode entrar por convite. Conheci dois membros desta quase sociedade secreta, ambos na casa dos 80 e vou ainda esta semana tentar imiscuir-me (adorava ser parte deste grupo geriátrico e ver quais as saus escolhas de leitura e análises literárias).
É óbvio que tenho que passar mais tempo na aldeia e sorrir aos meus vizinhos, em vez de pensar que estou em Londres e andar de óculos escuros e roupagens urbanas, criando enorme espanto neste cenário campestre. Não ajuda que esteja sempre a ir para Oxford na ânsia de me sentar em cafés e percorrer mercados e livrarias. Oxford tem edifícios magestosos e ruas com nomes fantásticos como a rua da Lógica. Parece que estamos na série "Reviver o passado em Brideshead" e há professores e alunos vestidos como nos anos 30, com ar distraído e livros e cadernos e isto para mim é o paraíso.
Entretanto a magnífica publicação da minha terreola informa-nos dos eventos previstos, como o jantar das colheitas, reuniões das comissões da aldeia sobre os controversos e ruidosos sinos da nossa igreja e uma lista dos vegetais premiados e respectivos produtores.
A minha missão principal agora para me tentar integrar na aldeia é encomendar uma caixa de legumes biológicos, que toda a gente carrega de um lado para outro. Produzidos numa quinta cercaneira, estes feiosos vegetais estão cobertos de terra e suculentas lagartas, mas recheados de nutrientes. Em Outubro a não perder é o festival da maça, de que vou enviar reportagem. Há anos escrevia sobre a turbulenta situação na Irlanda do Norte, agora sou para este modesto blogue, a correspondente das maçãs e outros temas de carácter hortícola e frutícola.
Descobri também que há interessantes actividades como o clube de badmington, de cricket, o grupo de jardinagem anunciadas num panfleto. Existe até um grupo de leitura muito exclusivo para o qual só se pode entrar por convite. Conheci dois membros desta quase sociedade secreta, ambos na casa dos 80 e vou ainda esta semana tentar imiscuir-me (adorava ser parte deste grupo geriátrico e ver quais as saus escolhas de leitura e análises literárias).
É óbvio que tenho que passar mais tempo na aldeia e sorrir aos meus vizinhos, em vez de pensar que estou em Londres e andar de óculos escuros e roupagens urbanas, criando enorme espanto neste cenário campestre. Não ajuda que esteja sempre a ir para Oxford na ânsia de me sentar em cafés e percorrer mercados e livrarias. Oxford tem edifícios magestosos e ruas com nomes fantásticos como a rua da Lógica. Parece que estamos na série "Reviver o passado em Brideshead" e há professores e alunos vestidos como nos anos 30, com ar distraído e livros e cadernos e isto para mim é o paraíso.
Entretanto a magnífica publicação da minha terreola informa-nos dos eventos previstos, como o jantar das colheitas, reuniões das comissões da aldeia sobre os controversos e ruidosos sinos da nossa igreja e uma lista dos vegetais premiados e respectivos produtores.
A minha missão principal agora para me tentar integrar na aldeia é encomendar uma caixa de legumes biológicos, que toda a gente carrega de um lado para outro. Produzidos numa quinta cercaneira, estes feiosos vegetais estão cobertos de terra e suculentas lagartas, mas recheados de nutrientes. Em Outubro a não perder é o festival da maça, de que vou enviar reportagem. Há anos escrevia sobre a turbulenta situação na Irlanda do Norte, agora sou para este modesto blogue, a correspondente das maçãs e outros temas de carácter hortícola e frutícola.
Friday, 25 September 2009
Prémio Booker, Lista de finalistas
A S Byatt, The Children's Book
J M Coetzee, Summertime
Adam Foulds, The Quickening Maze
Hilary Mantel, Wolf Hall
Simon Mawer, The Glass Room
Sarah Waters, The Little Stranger
J M Coetzee, Summertime
Adam Foulds, The Quickening Maze
Hilary Mantel, Wolf Hall
Simon Mawer, The Glass Room
Sarah Waters, The Little Stranger
Friday, 18 September 2009
Portugal: vinhaça, viola e bordoada
Acusaram-me, emigrante ausente de "não perceber Portugal". É verdade que estou fora do país há quase 15 anos, mas tive oportunidade neste verão quente de passar aqui uma boa temporada, principalmente na minha Lisboa natal, mas também na Costa alentejana, na zona de Óbidos e na sempre refrescante vila de Palmela, onde me recebem ano após ano no seio acolhedor da Pensão Riscadinha.
O Portugal socratiano está diferente, mas continua igual. Há curiosas personagens, situações e correntes de pensamento/comportamento que nada mudaram desde as observações de Eça de Queiroz que dizia que o país era governado ao acaso: a prevalência do compadrio, pomposos políticos, novos-ricos preocupados com a ascensão social e deslumbrados pelo estrangeiro, presunçosos confiantes de que galgam os corredores do poder, em suma, os Dâmasos Salcedes que povoam esta terra. Continuamos a ser o país da intrujice, dos chicos espertos, do nacional porreirismo, das cunhas, do desenrasca, da preguiça mental e moral, da burocracia kafkiana, características descritas e satirizadas por Miguel Esteves Cardoso há anos e mais recentemente por Ricardo Araújo Pereira.
Mas cresce o snobismo da direita por razões de classe e de dinheiro e da esquerda, no seu elitismo fácil datado e à deriva. Aumenta o nacionalismo xenófobo que glorifica Aljubarrota e que ainda não aceita segundas e terceiras gerações de portugueses com raízes africanas.
O pessimismo geral galopa com a crise económica e a retoma que tarda, o descontentamento com o governo actual, as eleições para escolher entre a "esquerda" possível, pragmática, mas gasta e a direita retrógada e conservadora. E nem já o futebol anima ninguém com os resultados medíocres da selecção nacional. O ambiente é de teoria da conspiração, com escutas e alegações de corrupção e de manipulação dos meios de comunicação. E a este panorama de mal-estar político, social, económico e moral junta-se o pânico da gripe com os seus efeitos avassaladores.
O que nos resta senão refugiarmo-nos nos vinhos, nos queijos e nos petiscos?
Como diria Eça "no fundo, nós somos todos fadistas: do que gostamos é de vinhaça e viola e bordoada".
Wednesday, 12 August 2009
Serões da Província-Encontros do terceiro grau
Como já referi as pessoas no campo gostam de meter conversa na rua. Ontem um senhor saiu de uma casa quando me viu na paragem do autocarro para me "ajudar" com indicações, embora tenha confessado não ter apanhado a camioneta nos últimos 50 anos. Ao pensar que os bilhetes custam ainda 20 pence ofereceu-se para me dar trocos (será que tenho cara de alguém que anda a pedir trocos?) com medo que o condutor não quisesse trocar uma libra. Na verdade o bilhete custava 2 libras.
Na aldeia vizinha fui ao centro de saúde e a caminho um homem, vestido à inverno e a cheirar a cerveja começou a fazer perguntas sobre o meu bébé, que adormecido não tinha desmaiado com o bafo de álcool do homem. A certa altura ele constatou que eu não era inglesa, começando depois a perguntar se eu era casada e se o meu marido era inglês. Vira-se então para mim e diz "não quero insultá-la mas sabe que há muitas mulheres estrangeiras que vêem para aqui para casar com ingleses e comprar carrinhos de bébé topo de gama, modelos ultra caros". Olhava para o meu carrinho que não é assim tão moderno, acho que nunca viu um Bugaboo que custa 500 libras e parece saído de um filme de ficção científica. Após esta tentativa de "não insultar", começa uma tirada contra mães adolescentes que são irresponsáveis e não deviam tomar conta de crianças (será que quase com 40 anos tenho cara de jovem borbulhenta que ficou grávida por acidente?)
Hoje fui ao pub que não serve "fast food". O dono não ficou nada contente e disse para a mulher na cozinha "parece que temos um pedido de almoço, tens que ir à loja comprar os ingredientes". Assim uma sandes de atum demorou uma hora e meia e nem sequer se desculparam com o "está a sair" que dizem nos cafés e restaurantes em Portugal. A culpa da demora é do cliente por ousar querer almoçar.
Na aldeia vizinha fui ao centro de saúde e a caminho um homem, vestido à inverno e a cheirar a cerveja começou a fazer perguntas sobre o meu bébé, que adormecido não tinha desmaiado com o bafo de álcool do homem. A certa altura ele constatou que eu não era inglesa, começando depois a perguntar se eu era casada e se o meu marido era inglês. Vira-se então para mim e diz "não quero insultá-la mas sabe que há muitas mulheres estrangeiras que vêem para aqui para casar com ingleses e comprar carrinhos de bébé topo de gama, modelos ultra caros". Olhava para o meu carrinho que não é assim tão moderno, acho que nunca viu um Bugaboo que custa 500 libras e parece saído de um filme de ficção científica. Após esta tentativa de "não insultar", começa uma tirada contra mães adolescentes que são irresponsáveis e não deviam tomar conta de crianças (será que quase com 40 anos tenho cara de jovem borbulhenta que ficou grávida por acidente?)
Hoje fui ao pub que não serve "fast food". O dono não ficou nada contente e disse para a mulher na cozinha "parece que temos um pedido de almoço, tens que ir à loja comprar os ingredientes". Assim uma sandes de atum demorou uma hora e meia e nem sequer se desculparam com o "está a sair" que dizem nos cafés e restaurantes em Portugal. A culpa da demora é do cliente por ousar querer almoçar.
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